Se você é uma startup de IA no Reino Unido, a pergunta que não quer calar é: como conseguir um escritório em King’s Cross? O bairro londrino — que há pouco mais de 20 anos era uma das áreas mais degradadas da cidade — virou um dos principais polos de inteligência artificial do mundo, comparado a San Francisco e Pequim.
A virada começou em 2016, quando a DeepMind, então recém-adquirida pelo Google, se mudou para lá. Em seguida, uma enxurrada de startups de IA seguiu o mesmo caminho, atraídas pela ideia de ficar perto da “magia” do Google DeepMind. Hoje, a região é conhecida como “Knowledge Quarter” e abriga nomes como OpenAI, Meta, Isomorphic Labs, Cusp AI, Wayne, Recursive e, um pouco mais adiante, Synthesia e Anthropic. A European Technology Network (ETN) também acabou de se instalar em um novo escritório por perto, com a University College London na esquina.
A disputa por espaço é tão grande que uma firma de venture capital teria vencido um negócio prometendo a um fundador um escritório no bairro. Questionada, a firma não confirmou nem negou, mas disse:
“Não paramos em nada para vencer negócios [para] e apoiar os fundadores, inclusive ajudando a conseguir espaço de escritório quando necessário.”
De área degradada a polo de IA
Hussein Kanji, investidor da Hoxton Ventures, lembra bem do passado sombrio da região. “Nos anos 1980, o crack e a heroína fizeram da área um grande mercado de narcóticos”, disse, lembrando seringas em troncos de árvores e gangues patrulhando as ruas. “Em 1982, a igreja local foi ocupada pelo English Collective of Prostitutes por 12 dias seguidos.” Depois, no início dos anos 2000, um incorporador imobiliário teve um sonho e, bem, “agora King’s Cross é o polo de IA do Reino Unido. Que mudança.”
Há cerca de 18 meses, a BioCorteX, do portfólio de Kanji, mudou-se do bairro Holborn para o edifício Jellicoe, em King’s Cross, para ficar perto da ação. Jeff Bezos também estaria negociando a mudança de sua empresa de IA, a Prometheus, para o mesmo prédio.
Os números impressionam: Londres tem cerca de 3.600 startups de IA, que juntas levantaram US$ 12,1 bilhões dos US$ 14,8 bilhões captados na cidade desde o fim de julho, segundo a Dealroom. Desde o início de junho, startups de IA alugaram mais de 1 milhão de pés quadrados de escritórios em Londres, de acordo com a corretora Knight Frank. Com isso, os aluguéis premium em King’s Cross subiram 18% em três anos, e a taxa de vacância para escritórios convencionais é de apenas 0,9%. “A demanda superou a oferta”, disse Chris Dunn, associado de insights comerciais da Knight Frank.
A questão da soberania
Um dos temas centrais da região hoje é a soberania. Quando a Anthropic desligou o acesso a Mythos e Fable neste verão, muitos no ecossistema concluíram: “É melhor nos cuidarmos”, disse Saul Klein, cofundador da Phoenix Court, uma VC localizada em King’s Cross. Para Robin Klein, cofundador da mesma firma, o episódio foi um “lembrete pequeno, mas contundente, de que a Europa não pode simplesmente alugar suas capacidades e capacidade de IA; ela precisa construir e manter algo próprio”. Ele acrescentou:
“A questão maior é se o Reino Unido constrói a infraestrutura, computação, energia e capital para tornar essa autossuficiência durável, em vez de apenas abrigar filiais de laboratórios americanos.”
Fundadores de peso querem ficar
Simon Kohl, fundador da Latent Labs, tem escritórios em King’s Cross e San Francisco. O escritório de Londres, por enquanto, está crescendo mais rápido, e ele está mais otimista do que nunca. “O clima agora parece menos com Londres tentando alcançar e mais com Londres se tornando um dos lugares padrão para abrir uma empresa séria de IA”, disse.
Alex Kendall, cofundador da Wayve, que se mudou para King’s Cross em 2018, também viu o ecossistema amadurecer ao seu redor. Para ele, “dez anos atrás, construir uma empresa de IA de fronteira a partir de Londres parecia uma escolha incomum. Agora parece uma escolha óbvia.”
A Synthesia, que fica perto da Anthropic, também aposta na região. Laura Gonzalez Florez, chefe de gabinete e head of people da empresa, contou que a companhia se mudou para um novo prédio há um ano. “É muito perto do aeroporto… muito perto de onde muitos investidores estão”, disse. Cerca de dois terços dos engenheiros da Synthesia trabalham remoto, e isso ajuda a escalar: “De Londres, podemos contratar e trabalhar, sem problema algum, com pessoas de qualquer lugar, da Eslovênia a Portugal.”
O boom também provocou uma guerra de talentos. As vagas de IA no Reino Unido dispararam, segundo dados da PwC. A Anthropic, por exemplo, anunciou uma faixa salarial de £260.000 a £630.000 para engenheiro de machine learning, enquanto a média londrina para o mesmo cargo é de cerca de £102.000. Alguns fundadores estão sendo forçados a levantar rodadas cada vez maiores para acompanhar o ritmo.
Para Zain Ali, fundador da Centuro, uma firma de direito especializada em IA com sede em King’s Cross, o momento é decisivo:
“O teste real é se mais empresas de IA globalmente significativas serão fundadas, financiadas e escaladas no Reino Unido, enquanto continuamos a atrair os melhores talentos do mundo para construí-las aqui. Se isso continuar acontecendo, King’s Cross não será apenas um polo de IA. Será um dos ativos estratégicos mais importantes do Reino Unido.”
Fonte: baseado na análise de Dominic-Madori Davis, publicada pela TechCrunch. Acesse a matéria original.